O problema…
Segundo um estudo de Alberto Peixoto, publicado a 26 de Junho de 2010 no jornal Açoriano Oriental, 15% dos açorianos já consumiram drogas, sendo que as ilhas do Pico e Santa Maria são as que apresentam a maior taxa de consumidores de droga (23%).
Os consumidores com menos de 14 anos têm vindo a aumentar, representando 3,5% do total de consumidores.
Segundo o mesmo estudo é referido que em 2009 houve 5385 dependentes que procuraram abandonar o consumo, mas apenas 12,5% é que tiveram sucesso e que 75% dos crimes estão relacionados com a toxicodependência
Por outro lado, alguns especialistas afirmam que a toxicodependência nos Açores é um caso de saúde pública. Isso verifica-se pelo aumento de casos de VIH e pela tuberculose que estão ligados ao consumo de drogas.
Um outro estudo, revelado pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência, refere que todas as regiões do país mantêm o padrão preferencial de consumo do país - em primeiro lugar o consumo de cannabis, seguindo-se-lhe o de cocaína e o de ecstasy, com excepção do Alentejo (a heroína surge como a segunda droga mais consumida a seguir à cannabis), do Algarve (a heroína surge entre as três substâncias com maiores prevalências de consumo) e dos Açores (as anfetaminas ocupam posição equivalente à que o ecstasy ocupa a nível nacional).
A nível Europeu, Portugal mantém-se entre os países com as menores prevalências de consumo para a generalidade das substâncias, com excepção da heroína, em que o nosso país surge com as maiores prevalências.
A nível dos utentes que recorrem às diferentes estruturas de tratamento da toxicodependência, a heroína continua a ser a substância mais referida como droga principal (entre 43% e 69% consoante o tipo de estrutura). A seguir surge a cocaína entre 6% e 18% dos casos.
Os Açores, sendo constituídos por 9 ilhas separadas pelo mar, faz com que a entradas da droga seja mais fácil, quer por via marítima, quer por via aérea.
As soluções…
É necessário alterar o modo de lidar com este problema em três vertentes: na prevenção primária, no tratamento e na reabilitação.
Embora haja alguns projectos e casos pontuais de conselhos municipais de prevenção à toxicodependência, deve-se ser mais incisivo e não deixar que esses projectos tenham um carácter simbólico e pontual.
Por isso, torna-se fundamental que o tema da toxicodependência seja abordado nas escolas, através da disciplina de formação cívica, com testemunhos reais. A aposta em publicidade negativa em concertos ou festas de juventude, deverá ser outra medida a realizar.
É preciso não esquecer que qualquer investimento feito na prevenção primária poderá significar uma poupança de milhões em tratamentos e reabilitações.
Contudo, é no tratamento dos casos actuais que se deve dar especial relevância.
O toxicodependente deverá ser visto como um doente que precisa de tratamento e, como tal, deverá ser tratado nos sítios para o efeito, ou seja, através do serviço regional de saúde.
Para isso, deverão ser criados espaços físicos, nas unidades de saúde existentes, destinados apenas para o tratamento dos toxicodependentes, onde, através de uma equipa multi-disciplinar que poderá incluir médicos, psicólogos e assistentes sociais, acompanhariam o doente ao longo do tratamento. Assim haveria um maior controlo sobre a população de risco, como a família do toxicodependente, e poderia haver um acompanhamento mais directo a essas pessoas, quer em termos psicológicos, como nos hábitos de higiene e tratamento do doente.
Por outro lado, uma forma de atrair a população toxicodependente ao tratamento seria fornecer, de forma gratuita, a dose da droga a que estão dependentes para desta forma iniciarem o processo de desintoxicação. Isso teria que ser feito através de testes e análises clínicas que comprovassem que realmente aquele doente necessita daquela dose específica de droga. A dose seria tomada no espaço da unidade de saúde destinada para o efeito, sempre na presença de médicos, assegurando assim a dose certa e todas as condições de higiene. O objectivo final será a desabituação estabelecida de uma forma gradual e programada.
De forma a não sobrecarregar a dívida do serviço regional de saúde, a aquisição de droga para as unidades de saúde poderia ser feita em articulação com as entidades oficiais, em que, por exemplo, as apreensões seriam utilizadas por essas unidades de tratamento.
Com a distribuição gratuita de droga combate se dois problemas: a diminuição da criminalidade, pois os toxicodependentes deixariam de cometer certos crimes para terem dinheiro para comprarem a dose diária, e por outro lado a diminuição do preço da droga, desincentivando a prática ilícita da venda de droga, pois uma das formas de combater a traficância é desvalorizando a droga.
Durante a consulta, o doente seria acompanhado por psicólogos com o objectivo de ajudar a desabituar-se à droga, envolvendo-o num programa de tratamento e posterior reabilitação na vida activa.
Nesta fase poder-se-ia promover o empreendedorismo social, fazendo-se emergir mecanismos de incentivo à criação de pequenas empresas e de promoção do auto-emprego, por parte dos ex-toxicodependentes, servindo de exemplo para aqueles que se estão a tratar.
A abertura de mais clínicas de tratamento, é outro aspecto a ter em conta, devendo as entidades competentes encaminhar para esses espaços os casos de tratamento, sempre com o acompanhamento de assistentes sociais e psicólogos que acompanharam o doente desde o início do processo de tratamento.
Em relação à terceira fase que é a reabilitação, é essencial que o ex-toxicodependente se sinta útil de novo. Para tal é necessário criar-se mais protocolos com instituições e empresas para que esses indivíduos possam ter condições de trabalho e assim iniciarem novamente uma vida activa.
